1995: RE-PENSAMENTO

RE-PENSAMENTO – O PENSAMENTO BRASILEIRO

César Meneghetti and Lee Swain

Curators: Frederico de Moraes and Maria Lúcia Verdi

Year of production: 1995 Media: 12 Objects (box form) / multiples and 2 Installations

Public view: Galeria Candido Portinari, Rome, Italy MIART, Milan, Italy.

BOOK: O pensamento brasileiro, IILA Palma, Palermo, April 1995. ISBN: 88-770-4244-3

[br]

Pensar o Brasil não é tarefa exclusiva dos intelectuais, historiadores, cientistas políticos, economistas e professores, mas também de seus artistas. Estes, com sua imaginação criadora, contribuem para o aprofundamento e alargamento de nossa consciência de nação. Afirmei, mais de uma vez, que um país não se constói apenas com usinas, ferrovias e outros grandes investimentos econômicos mas também com imagens. A imagem do Brasil – seu caráter ou identidade – está sendo construída continuamente por alguns artistas que sabem captar e expressar seus desejos profundos de nação, seu imaginário. Trabalhando com imagens, recriando-as segundo as necessidades especificamente plásticas, estes artistas estão, ao mesmo tempo ajudando a criar a imagem do país. Suas obras constituem, assim, uma espécie de arquivo multifacético ou plurimagístico – arquivo que deve ser consultado por qualquer um que queira conhecer melhor o Brasil, seja ele um antropólogo ou um esteta, um político ou um brasilianista. O sociólogo Guerreiro Ramos, ainda na década de 50, afirmava que as emoções tem história e que se podia elaborar uma sociologia das emoções. Analisando as pinturas de Djanira, dizia encontrar nelas “um valor sociológico indisfarçável: há qualquer coisa nos seus quadros que ensina o sociólogo brasileiro”. Se em certos textos de juventude de Mário de Andrade, como “As enfibraturas do Ipiranga” o vigor da narrativa sugere uma intensidade de côres e angulações desenhísticas a lembrar certas obras fovistas, em muitos poemas de João Cabral de Melo Neto, como “O touro de Lidia”, as imagens fluem tanto quanto as palavras, invadindo o terreno da pura visualidade: são como esculturas se fazendo/desfazendo diante dos nossos olhos. Em matéria de cultura tudo é reversivel ou intercambiável. Assim como os escritores, poetas e antropólogos encontram na paisagem física e cultural do Brasil uma plasticidade que os ajuda a pensar o país, inversamente, artistas plásticos vão buscar na história e na cultura brasileiras, em poemas e romances os temas e/ou motivações para sua obra. E’ o caso dos trabalhos aqui expostos realizados em conjunto por Lee Swain e César Meneghetti, artistas multimídias, que transitam com igual competência, pela plástica, pelo design gráfico, video e cinema. Ambos têm vivido e trabalhado no exterior, este distanciamento geográfico, contudo, não os afastou do processo cultural brasileiro. Os trabalhos aqui expostos têm como ponto de partida a publicação do volume “O Pensamento Brasileiro”, que reúne as conferências realizadas nos Centros de Estudos Brasileiros da Embaixada do Brasil em Roma, no primeiro semestre de 1994. Mas atenção – não devem ser vistos como “ilustrações” de determinados temas abordados no seminário… e sim como pura invenção artística da cultura brasileira. O formato caixa (boxform) adotado ganha um significado especial na medida em que vivendo seus autores no exterior, eles retomaram a idéia duchampiana da boite-en-valise para criar uma espécie de Brasil portátil, um pro-memória transportável ou manuseável à distância, peripatético. E’ importante observar que algumas caixas foram originalmente gavetas tipográficas, armários e/ou oratórios, que dispõe de alças para o seu transporte manual e de dobradiças, que permitem abri-las, como trípticos, ou compactá-las. O interior por sua vez, é todo compartimentado em nichos ou divisões, que abrigam séries completas, múltiplos ou fragmentos, os quais, vistos em conjunto fornecem uma visão da cultura-mosaico do Brasil. Nas caixas, como um caleidoscópio, há de tudo um pouco: textos, imagens, objetos de plástico produzidos industrialmente, objetos artesanais, patuás, fitas, molduras torneadas, etiquetas e moedas, simbolizando a diversidade cultural brasileira. História e atualidade: trópico, barroco, carnaval, futebol, religião, literatura. E ainda: arquétipos, estereótipos, mitos, heróis, idéias, conceitos, totens e tabus. Arqueologia e psicanálise do carater brasileiro, a sacralização da festa e a carnavalização do sagrado. Anos de chumbo: cadeados e parafusos. Memória e interdição. Brasil arcaico (yes, nós temos bananas), mas e o Brasil moderno, onde está ? Grande sertão: acelera Ayrton.

FREDERICO DE MORAES Crítico e Historiador de Arte Rio de Janeiro 1995

[it]

Pensare il Brasile non è compito esclusivo degli intellettuali, degli storici, dei sociologi, degli economisti e dei cattedratici, ma anche dei suoi artisti. Questi, con il loro immaginario creativo, contribuiscono all’approfondimento e all’ingrandimento della nostra “coscienza di nazione”. Ho affermato più di una volta che un paese non si costruisce soltanto con reti idroelettriche, ferrovie e altri grandi investimenti economici, ma anche con l’immagine. L’immagine del Brasile – il suo carattere o la sua identità – viene costruita continuamente da alcuni artisti che riescono a captare e ad esprimere i suoi desideri più profondi di nazione, il suo immaginario lavorando con le immagini, ri-creandole secondo le loro necessità specificamente plastiche; questi artisti contribuiscono anche a creare l’immagine del loro paese. Le loro opere costituiscono cosÌ una specie di archivio “multisfaccettato” e/o “plurimagistico” – un archivio che deve essere consultato da qualunque persona voglia conoscere meglio il Brasile, che si tratti di un antropologo o di un esteta, di un politico o di un brasilianista. Il sociologo Guerreiro Ramos, già negli anni 50, affermava che le emozioni hanno una storia tanto che si potrebbe elaborare una sociologia delle emozioni. Analizzando le pitture di Djanira, sosteneva di cogliere in queste “un valore sociologico inimitabile,una sorta di insegnamento per il sociologo brasiliano”. Se in certi testi di gioventù di Mario de Andrade, come “As enfibraturas do Ipiranga”, il vigore della narrativa suggerisce un’intensità di colori e di angolazioni “disegnistiche” che ricorda alcune opere “fauvistes”, in molti poemi di Joao Cabral de Melo Neto, come “O touro de Lidia”, le immagini fluiscono tanto quanto le parole, invadendo il terreno della pura virtualità, come sculture che si fanno / disfanno davanti ai nostri occhi. In materia di cultura tutto È reversibile e/o intercambiabile. CosÌ come gli scrittori, i poeti e gli antropologi trovano nel paesaggio fisico e culturale del Brasile una plasticità che aiuta a pensare il paese, inversamente, gli artisti plastici vanno a cercare nella storia e nella cultura brasiliana, in poemi e romanzi i temi e/o le motivazioni per la loro opera. E’ il caso dei lavori qui esposti, realizzati da LEE SWAIN e CESAR MENEGHETTI, artisti multimediali, che spaziano disinvolti dalle arti plastiche al video/cinema, dalla fotografia al design grafico. Pur avendo entrambi vissuto e lavorato all’estero, non per questo si sono distanziati dal processo culturale brasiliano. I lavori esposti traggono spunto dai temi dibattuti nelle conferenze del seminario ì O PENSAMENTO BRASILEIRO ì tenuto al CEB nel 1994. Ma attenzione, questi non vanno visti come illustrazioni di talumi temi trattati… invenzione plastica della cultura brasiliana. Il formato scatola (boxform), che acquisisce speciale significato dal momento che i suoi ideatori/artisti vivono all’estero, riprende l’idea “Duchampiana” della “boite-in-valise” che qui ha la funzione di creare una sorta di Brasile portatile, di un pro- memoria trasportabile a distanza, “peripatetico”. E’ importante osservare che alcune scatole erano in origine cassette tipografiche, armadi e/o sacrari, dotati di maniglie per il trasporto manuale e di cerniere/ante che permettono di aprirle come trittici oppure di ìcompattarleî. L’interno, a sua volta, È tutto suddiviso in nicchie e scomparti, che accolgono serie complete, multiple o frammentarie che, nel loro insieme, offrono un’immagine della cultura-mosaico del Brasile. Nelle scatole, come in un caleidoscopio, v’È di tutto un po’: testi, immagini, oggetti di plastica prodotti industrialmente, oggetti artigianali, “patuàs”, nastri, cornici tornite, etichette e monete, a simbolizzare la eterogeneità culturale brasiliana. Storia ed attualità: tropico, barocco, carnevale, calcio, religione, letteratura. Ed ancora: archetipi, stereotipi, miti, eroi, idee, concetti, totem e tabù. Archeologia e psicanalisi del carattere brasiliano, sacralizzazione della festa e carnevalizzazione del sacro. Anni di piombo: catene e viti. Memoria ed interdizione. Brasile arcaico (Yes, abbiamo le banane). Ma il Brasile moderno, dov’è ? Grande sertão, accelera Ayrton.

FREDERICO MORAIS Critico e storico d’arte Rio de Janeiro 1995


[br]

Introdução ao projeto de Maria Lúcia Verdi – diretora do centro de estudos brasileiros Trazer a Roma o pensamento brasileiro. Trazer alguns daqueles brasileiros que escrevem em torno da questão brasileira, ou do modo com se lê o mundo a partir do Brasil. Foi feito um Seminário. Vieram 10 dos doze convidados. Foi feito um livro com doze textos. A partir disso a idéia da instalação de hoje. Lee Swain (também ele delegou à palavra, ao signo, às possibilidades da substituição da carne, a sua presença) e César Meneghetti, companheiros na empresa de tentar tornar concreto algo que é pura epifania, quando se compreende. A brasilidade – ela e suas origens, suas mistura, ela e a síntese. Encaixotar o Brasil e, assim fazer que em Roma se escutem, se leiam, se vejam traços daquilo que é a nossa identidade (bondade/maldade: as rimas e a valência do múltiplo). Vejo um quadro de César e fixo a imagem de um índio que corre. Luta e permanência. Nas caixas-Brasil, caras brasileiras, ícones de uma cultura, de uma natureza, medieval, barroca, pós-moderna. Vejo, também, grãos e sementes universais. O Menino Jesus tem preço? Em que barco ele navega? A travessia brasileira, por entre serpentinas e espinhos. Mas o cactus dialoga com um barco que, efetivamente, atravessa Caixa. O pensamento escorre

[it]

introduzione al progetto di Maria Lúcia Verdi – direttrice del centro studi brasiliani Portare a Roma la riflessione brasiliana. Portare alcuni di quei brasiliani che scrivono sulla questione brasiliana o sul modo in cui si legge il mondo visto dal Brasile. Si è fatto un seminario. Sono venuti 10 dei 12 ospiti invitati. Si é fatto un libro con 12 testi. Di qui l’idea dell’allestimento d’oggi. Lee Swain (anche lui ha delegato alla parola, al segno, alle possibilità di sostituzione della carne la sua presenza) e Cesar Meneghetti, compagni nell’impresa di tentare di rendere concreto ciò che è pura epifania, quando lo si comprende. La brasilianità – essa e le sue origini, le sue mescolanze, essa e la sintesi. Impacchettare il Brasil, e far così che a Roma si ascoltino, si leggano, si vedano tratti di quella che è la nostra identità (benignità e malignità: le rime e la valenza del multiplo). Vedo un quadro di César e mi fisso sull’immagine di un indio che corre. Lotta e persistenza. Nelle scatole, volti brasiliani, icone di una cultura, di una natura, medievale, barocca, post-moderna. Vedo anche grani e semenze universali. Gesù bambino ha un prezzo? In che barca naviga? La traversata brasiliana, tra serpentine e spine. Ma il cactus dialoga con una barca che di fatto, sta attraversando la Scatola. Il pensiero scorre.


OBRAS E TEXTOS [EXTRATO]

O MUNDO MISTURADO – Davi Arrigucci Jr “Romance e experiencia em Guimaraes Rosa” (…) “Que isso foi bem o que me invocou, o senhor sabe: eu care­ço de que o bom seja bom e o ruim ruim, que dum lado esteja o preto e doutro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos pastos demarcados… Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do fel do dese­spero. Ao que, este mundo é muito misturado…” Grande Sertão: Veredas O desejo de Riobaldo de entender as coisas claras, delimi­tando os opostos, acaba por se defrontar , portanto, com a mistura do mundo. Essa mistura do mundo que o livro exemplifica sobejam­nete, em variadissimos aspectos e planos, coloca também uma que­stao decisiva, que é a mistura das formas narrativas utilizada para representar a realidade de que nos fala. Ao que parece, a singularidade do livro, que se impoe desde logo ao leitor, depende em profundidade da mescla das formas nar­rativas que compoe, intrinsecamente realcionada com o mundo mi­sturado que tanto desconcerta o narrador.(…) A mescla começa pelo meio concreto utilizado na construçao do sertao como espaço ficcional e universo literario, que é a linguagem. (…) No Grande Sertao: Veredas, obra de um artista maduro no ple­no dominio de seus meios, desde o inicio da fala do narrador: (“- Nonada. Tiros que o sertao ouviu.”) até a ultima palavra que ela se encerra (“Travessia.”), a linguagem é misturadissima. E denun­cia uma poderosa vontade de estilo (explicitada pelo proprio Ro­sa) de tudo moldar e remoldar conforme a necessidade de expres­sao, que nao se satisfaz jamais com o codogo expressivo herdado, o lugar-comum, a forma tradicional. (…)

IL MONDO MISCHIATO – Davi Arrigucci Jr “Romanzo ed esperienza in Guimarães Rosa” (…) “Che questo sia sempre stato ciò che mi ha fatto infuriare, Lei lo sa: io ho bisogno che il buono sia buono e il malvagio sia malvagio, che da una parte si trovi il nero e dall’altra il bianco, che il brutto si trovi ben separato dal bello e l’allegria lontana dalla tristezza! Voglio ogni pascolo recintato… Come faccio con quento mondo? La vita è ingrata nella sua parte lieve; ma riesce a far emergere la speranza anche in mezzo al fiele della disperazione. Al che, questo mondo è molto mischiato…” Grande Sertão: Veredas Il desiderio di Riobaldo di capire le cose chiaramente, delimitando gli opposti, finisce col confrontarsi, pertanto, con la mistura del mondo. Questa mistura dem mondo, che il libro esemplica abbondantemente in numerosissimi aspetti e piani, pone anche una questione decisiva, che è la mistura delle forme narrative utilizzate per rappresentare la realtà della quale ci parla. A quanto pare, la singolarità del libro, che si impone subito al lettore, dipende in profondità dalla miscela di forme narrative che lo compongono, intrinsecamente legata al mondo mischiato che tanto sconcerto crea al Narratore.(…) Il miscuglio inizia attraverso il mezzo concreto utilizzato nella costruzione del sertão come spazio fantastico e universo letterario, che è il linguaggio. (…) In Grande Sertão: Veredas, opera di un artista maturo nel pieno possesso dei suoi mezzi, fin dall’inizio del dialogo del Narratore (” – Nonada . Spari che Lei ha udito(…)”) fino all’ultima parola con cui si conclude (“Travessia”), il linguaggio è mischiatissimo. E denuncia una poderosa voglia stilistica (resa esplicita dallo stesso Rosa) di modellare o rimodellare tutto a seconda della necessità di espressione, che non si soddisfa mai del codice espressivo ereditato, del luogo comune, della forma tradizionale (…)


A GAIA CIÊNCIA “Música popular e literatura no Brasil” – José Miguel Wisnik (…)       Um dos traços mais notavéis da música popular brasileira é a permeabilidade que nela se estabeleceu a partir da bossa nova entre a chamada cultura alta e as produções populares, formando um campo de cruzamento muito dificilmente inteligível à luz da di­stinção usual entre a música de entretenimento e a música infor­mativa e criativa. Na canção popular brasileira das últimas três décadas encontram-se bases portuguesas e africanas com elementos do jazz e da música de concerto, do rock, da música pop interna­cional e, da vanguarda experimental travando por vezes um diálogo intenso com a cultura literária, plástica, cinematográfica e tea­tral.(…) Noutras palavras, o fato de que o pensamento mais ela­borado, com o seu lastro literário, possa ganhar vida nova nas mais elementares formas musicais e poéticas, e que essas, por sua vez, não sejam mais pobres por serem elementares , tornou-se a materia de uma experiência de profundas conseqüências na vida cultural brasileira nas últimas décadas.(…) Milton Nascimento fez a música e, dando o nome do conto de Guimarães Rosa “A terceira margem do rio”, contido no livro “Primeiras Estorias”, propôs a Caetano Veloso que fizesse a letra: Oco de pau que diz eu sou madeira, beira boa, da vau, tristriz risca certeira meio a meio o rio ri silencioso, sério nosso pai nao diz, diz risca certeira agua da palavra agua calada pura agua da palavra agua de rosa dura proa da palavra duro silencio, nosso pai margem da palavra entre as escuras duas margens da palavra clareira, luz madura rosa da palavra puro silencio, nosso pai meio a meio o rio, ri por entre as arvores da vida o rio riu, ri por sob a risca da canoa o rio viu, vi o que ninguem jamais olvida ouvi,ouvi,ouvi a voz das aguas asa da palavra asa parada agora casa da palavra onde o silencio mora brasa da palavra a hora clara, nosso pai hora da palavra quando nao se diz nada fora da palavra quando o mais dentro aflora tora da palavra rio, pau enorme, nosso pai. (…)       A singularidade de cançao popular brasileira tem nesse exemplo a demonstraçao de uma de suas consequencias inusitadas: em que cultura, ou que em pais pode-se perguntar, o cancionista popular chega a ser o sujeito de uma interpretaçao vertical do seu maior escritor ? (…)

LA GAIA SCIENZA  “Musica popolare e letteratura in Brasile” – José Miguel Wisnik (…)Uno dei tratti più rilevanti della musica popolare brasiliana è la permeabilità stabilita in ess, dopo la bossa-nova, tra la così detta alta cultura e le produzioni popolari, che formano un incroccio molto difficilmente intelligibile alla luce della distinzione usuale tra la musica di intrattenimento e la musica informativa e creativa. Nella canzone popolare brasiliana delle ultime tre decadi si trovano le radici portoghesi e africane con elementi di jazz e della musica erudita, del rock, della musica pop internazionale e dell’avanguardia sperimenetale, intrecciando talvolta un dialogo intenso con la cultura letteraria, plastica, cinematografica e teatrale.(…) In altre parole, il fatto che il pensiero più elaborato, con il suo lustro letterario, possa prendere vita nuova nelle più elementari forme poetiche e musicali e che queste, a loro volta, non siano più povere perché elementari, è diventata materia di un’esperienza di profonde conoscenze nella vita culturale brasiliana nelle ultime decadi.(…) Milton Nascimento ha composto un brano chiamandolo come il racconto di Guimarães Rosa “Il terzo margine del fiume”, dal libro “Primeiras Estorias”, e chiedendo a Caetano Veloso di scrivere il testo: eu sou madeira, beira boa, da vau, tristiz risca certeira meio a meio o rio ri silencioso, sério nosso pai não diz, diz risca certeira água da palavra água calada pura água da palavra água de rosa dura proa da palavra duro silêncio, nosso pai margem da palavra entre as escuras duas margens da palavra clareira luz madura por entre as árvores da vida o rio riu, ri por sob a risca da canoa o riu viu, vi o que ninguém jamais olvida ouvi, ouvi, ouvi a voz das águas asa da palavra asa parada agora casa da palavra onde o silêncio mora brasa da palavra a hora clara, nosso pai hora da palavra quando não se diz nada fora da palavra quando o mais dentro aflora tora da palavra rio, pau enorme, nosso pai (…) Questo esempio è una dimostrazione della singolarità della canzone popolare brasiliana e delle sue conseguenze inusitate: in quale cultura o paese si può domandare que il cantante popolare sia il soggetto di una interpretazione verticale del suo maggiore scrittore?


ELOGIO DO INCESTO – Sérgio Paulo Rouanet “Ensaio sobre a individualidade cultural brasileira com relação à pós-moderna” (…) o nacionalismo cultural elogia com orgulho legítimo as características de nossa formação étnica, marcadas pela mescla de raças e pela tolerância inter-cultural. Mas tendo surgido graças a essa exogamia, a cultura brasileira é intimada, bruscamente, a tornar-se endogâmica. Estamos proibidos de continuar recorrendo, para desenvolver nossa cultura, ao processo que a gerou: a miscigenação. Numa atitude inexplicavelmente racista, os nacionalistas proibem a mestiçagem cultural, ou só a autorizam entre as correntes étnicas já presentes no país, vetando relações culturais com estrangeiros. Não é a melhor maneira de revigorar nossa cultura: a longo prazo, o incesto costuma produzir filhos idiotas. O projeto do nacionalismo cultural é contraditório e perigoso. Contraditório, porque não podemos escapar da cultura mundial nem sequer quando a rejeitamos, porque é dela que retiramos as categorias que nos permitem excluí-la. (…) Perigoso, porque à força de arreganhar os dentes contra inimigos externos imaginários perdemos de vista os adversários reais, que estão aqui mesmo, dentro do Brasil, lutando com todas as suas forças para perpetuar a marginalidade cultural das classes populares. Pois a inimiga não é a cultura estrangeira, e sim a incultura – uma incultura produzida politicamente, funcional porque ajuda a manter as desigualdades sociais, e ecumênica porque condena suas vítimas a uma ignorância imparcial, abrangendo tanto Guimarães Rosa quanto James Joyce. Perigoso, também, porque só há um passo do nacionalismo à xenofobia e desta à supressão, em geral, da liberdade de pensar.(…) ELOGIO DELL’INCESTO –  Sérgio Paulo Rouanet “Saggio sull’individualità culturale brasiliana in rapporto alla post-modernità”. Il nazionalismo culturale elogia con legittimo orgoglio le caratteristiche della nostra formazione etnica, segnate dal mi­scuglio di razze e dalla tolleranza inter-culturale. Ma essendosi creata tale esogamia, la cultura brasiliana è obbligata, brusca­mente, a divenire endogamica. Ci è proibito di continuare a ricorrere, per sviluppare la nostra cultura, al processo che l’ha gene­rata: il mescolamento di razze. In un atteggiamento inspiegabil­mente razzista, i nazionalisti proibiscono l’incrocio fra le correnti etniche già presenti nel nostro paese, vietando relazio­ni culturali con stranieri. Non è la maniera migliore di rinvigo­rire la nostra cultura: a lungo termine, l’incesto produce di so­lito figli idioti. Il progetto di nazionalismo culturale è contraddittorio e pe­ricoloso. Contraddittorio perché non possiamo sottrarci alla cul­tura mondiale nemmeno quando la rifiutiamo, perché è da essa che estraiamo le categorie che ci permettono di escluderla. Pericolo­so perché, a forza di mostrare i denti a nemici esterni immaginari, abbiamo perso di vista gli avversari reali, che si trovano pro­prio qui, in Brasile, e lottano con tutte le loro forze per per­petuare l’emarginazione culturale delle classi popolari. Poiché la nemica non è la cultura straniera, ma l’incultura – una incul­tura prodotta politicamente, funzionale in quanto aiuta a mante­nere le disparità sociali ed ecumenica poiché condanna le sue vittime ad un’ignoranza imparziale, visto che include sia Guimarães Rosa che James Joyce. Pericoloso, inoltre, perché v’è un so­lo passo dal nazionalismo alla xenofobia e da questa alla soppressione, in generale, della libertà di pensare. (…)


[br]

RE-PENSAMENTO – ENTREVISTA A CÉSAR MENEGHETTI

Q: O que é a mostra “O Pensamento Brasileiro”?

 

CESAR MENEGHETTI: A mostra é uma espécie de janela que vê ou melhor revê o Brasil, por dois brasileiros, da Europa, a 10.000 km de distância, com a lucidez do destaque geográfico que ajudou muito a aguçar a síntese, instrumento fundamental para trabalhar plasticamente esse projeto. As obras foram concebidas e executadas em direta com a sua qualidade de “representação” estética. De um lado o objeto fundamental era o Brasil, mas um Brasil abstrato, que se encontra no pensamento, na sensação, “working in progress”, escultural, e no âmago da vida/ser de quem veio desta área geográfica do planeta. De outro lado um Brasil mais concreto e as suas mais variadas interpretações, nas palavras dos mais ilustres ensaístas do Pensamento Brasileiro. Representações mentais que originaram as representações iconográficas no social, cultural, religioso, político, filosófico, psicológico, antropológico, histórico, sociológico etc…

Q: Por que uma mostra sobre o seminário “O Pensamento Brasileiro”? Qual a ligação entre a exposição de arte e estes seminários ?

CM: A ideia da exposição veio quase simultaneamente com a realização dos seminários e a proposta de representar gráfica e visualmente o livro. O nosso ponto de partida foi sim os seminários, mas no final acho que as obras acabaram dialogando com as ideias e alcançaram uma vida própria, não obstante tudo esteja intrinsecamente ligado. A “obra”, hoje em 1995, não é reduzível somente às suas características que a definem com tal: pintura, escultura, composição musical, poesia ou filme. Estas obras praticamente não existem, em termos duráveis, se não se basearem em um conjunto de requisitos que satisfaça a nova ordem da aldeia global. Em geral este é constituído pela análise de condições (econômico, social, histórico, cultural, geográfico), análise das modalidades de recepção, do confronto da obra perante a comunidade mundial (num dado lugar, num momento preciso) e também por um apoio crítico que gera, interage e acompanha estas obras. No caso de RE-PENSAMENTO essas três condições são plenamente satisfeitas e foram geradas da premente necessidade de analisar e pensar o “objeto-mor”, que é o Brasil.

Q: Representar um texto sobre o ensaio brasileiro, que reunia nomes de primeiríssima ordem, onde a reflexão intelectual produ­zida no Brasil era a protagonista não restringiram ou intimidaram na elaboração do trabalho de vocês?

CM: Não, muito pelo contrário, elas se alimentaram e ajudaram u­mas com as outras. No mundo da inteiração multimídia, onde pra­ticamente depois do acordo USA-UE deram o vai a terceira revolução industrial com a abertura dos mercados da informática, do in­tercambio entre os vários elementos sejam eles quais for é a nossa mais concreta realidade ideológica. A música popular brasileira se alimenta de literatura, o cinema se alimenta de teatro, o vídeo se alimenta de poesia, a pintura se alimenta de fotografia, a poesia se alimenta de imagens e assim por diante. Nas artes plá­sticas eu não vejo que outra solução se não aquela da chamada (e também abusada palavra): multimídia.

Q: Vocês se auto definem como artistas multimídia. O que quer dizer para vocês isso ?

CM: Todas as formas de arte se alimentam da vida. E não existe coisa mais multimídia-interativa que a própria vida. E’ simplesmente que o homem com o avançar dos tempos busca ampliar os caminhos para a sua expressão, talvez para rendê-la mais apropriada à sua natureza sensorial. Eu e Lee decidimos de colaborar juntos não somente pelo fato de sermos dois artistas brasileiros na Europa com um passado publicitário/cinematográfico ou por “falar a mesma língua” mas sim porque nos identificamos por querer criar algo que fosse mais “completo” ou coerente com nos mesmos que não a pintura, escultura, fotografia, cinema ou vídeo isoladamente. Nesta mostra essas várias “formas” convivem e dividem uma perfeita combinação de diversas técnicas dando à ela o seu caráter essencial, que reside na diferença: nas diversas formas de pensamento, confluência da mistura, resultado da dicotomia sócio-etno-cultural. Ser brasileiro sim, na sua especificidade enquanto produzido por brasileiros, mas ao mesmo tempo não sendo obtusamente nacionalista, tentando ir além, “transcender” e o mais importante relacionar-se de igual para igual, em um diálogo aberto ao mundo exterior, ao 1° mundo e arrabaldes. Havendo ou não tecnologia à nossa disposição tentamos a interação com todos os meios disponíveis, de uma certa maneira ser “trickster”, servir de canal para o mundo afora, ser autossuficiente, demiurgo e consciente da própria produção, sem complexos. A grande diferença é que estamos falando da “Metrópole” para a “Metrópole”, boicotando o usual traçado Metrópole-Colônia, evitando assim de correr o risco de virar um simples “produto de exportação”. E, o que é o mais difícil para nós, furar este bloco da resistência cultural européia a qualquer forma de produção pensante do “terceiro mundo”. Aldeia global, sim, quebra das fronteiras, ok, mas que forma de relação multimedia-democratic-free-market-interactive é essa se ela é assim tão unidirecional ? Eu não sou o “bom selvagem”.

Q: Por que todos os trabalhos têm o formato “caixa” e como eles representam o pensamento brasileiro?

CM: Nós partimos do princípio da função da nossa memória (individual ou social) como uma “caixa”, um “container” onde neles estão dispostos e registrados uma infinidade de dados e informações como a base de toda uma formação cultural de um indivíduo ou de um povo. A caixa é o nosso elemento estético para representar o lugar onde essa bagagem cultural é armazenada. Sem falar no referimento metafórico tradicional de “mercadoria”, made in Brazil, exportação, intercâmbio cultural, mala, viagem, movimento, quebra de confins, auto-ironia…

Q: Por que vocês escolheram fazer um trabalho made in Brazil no exterior e não por exemplo, produzido exclusivamente no Brasil?

CM: “Longe de mim em mim existo / A parte de quem sou / A sombra e o movimento em que consisto” escrevia em 1920 Fernando Pessoa. Eu, Lee e tantos outros brasileiros ou melhor seres humanos que vivem ou viveram fora do país onde nasceram, longe da madre-pátria (mátria, vide meu mestre Júlio Plaza), madre-língua, temos de um lado um “q” de órfão-auto-exilado mas, por outro lado podemos observar em um ponto privilegiado o país onde nascemos, que seja o Brasil em comparação as demais culturas, ou em relação ao próprio Brasil. Estamos constantemente traçando paralelos, analisando e tentando compreender por analogia, identificação ou contradição, transportando à nossa realidade imediata o que aprendemos como positivo dos demais povos e/ou culturas. Nós filhos (quase) pródigos, quando estamos muitos anos fora, vemos o Brasil de uma maneira nostálgica, idealizada, que é fruto da lembrança de fatos gravados na nossa memória como acontecimentos positivos, de um passado que só existe dentro de nos mesmos, congelado. O nosso presente e futuro de uma forma ficam visceralmente ligados (quase prisioneiros) à essa ideia de passado estático, que se transforma em futuro. Fazer RE-PENSAMENTO é resgatar em qualquer modo a minha parcela de cidadania e de me reinserir no processo cultural brasileiro, que na minha opinião é dos mais ricos e fantasiosos do mundo. Na verdade eu acho que o Brasil é um pais que esta na vanguarda das aldeias globais, pelo simples fato de ser um lugar que vem sofrendo o processo de intercambio etno-cultural há centenas de anos: uma cultura branca ibérica, cultura africana e presença indígena; mais tarde cultura europeia, médio-oriental e asiática. Neste pluralismo etno-cultural estão incestados os genes da mais pura receita de contemporaneidade, que em teoria venha a desenvolver um “pensamento” cuja especificidade esteja em seu universalismo.

Q: O que é ser um brasileiro e morar fora do seu país ? Como vocês viveram o ser artista no exterior, por que?

 

CM: Eu sou um ser humano sem lugar no mundo, meu lugar quer ser em todo lugar. A sociedade em geral me diz diversamente. O meu imprinting é de ser um brasileiro. Talvez, um brasileiro ilhado na península itálica. Quando eu morava no Brasil eu era um ser “afro-anglo-itálico-tupi-austríaco-nipo-ibérico ilhado no continente brasileiro-sul-americano”. Essa coincidência/contradição me faz entender perfeitamente quando se fala de um ser humano. Liberado do corpo, do espírito, da realidade, o que resta do ser humano? – Problemas pessoais e de relacionamento à parte – estando em plena viagem os sentimentos se afloram e se intensificam em uma maneira tal que você pensa que a vida esta’ brincando com você, como um barquinho (do João/Jobin) no Oceano (de Djavan). E’ talvez porque você vive duas viagens, a viagem simbólica da vida e a meta-viagem, a viagem na viagem. Muitas vezes você se agarra à clichês, chavões de comportamento e cultura como uma forma desesperada de recuperar sua identidade, ora perdida ou diluída do mundo circunstante. Crer nisso é crer somente no que é aparente, visível, seja momentaneamente “casa”, que o mundo material, dos possessos, do haver seja o único possível. Acho que uma pessoa deve tentar construir seu universo de identificação dentro de si mesmo, e isso é um problema que não depende do lugar que um se encontra. O nacionalismo cria a maioria das vezes a intolerância, (arraigada e infelizmente humana) que vê o seu “semelhante” mas não tão semelhante quanto outro semelhante mas que seja de outras partes longínquas do globo. Esse sentimento que supervaloriza seja individualismo-egoísta, o bairrismo, provincialismo, I AM BRITISH, JE SUIS FRANÇAIS, ICH BIN DEUTCH etc. É uma deturpação do sentimento de amor universal inato em todos nos seres humanos. Talvez um desequilíbrio entre o isolamento causado pelo senso de defesa nas grandes cidades e a profunda vontade de estar juntos sejam eles italianos, ingleses, americanos, africanos, australianos, asiáticos ou brasileiros.

Q: O que é o Brasil visto da Europa? Como vocês viveram esta ex­periência?

CM: O crítico de arte Frederico Morais diz que a Europa tem seus mercados fechadíssimos para o artista brasileiro, ou como já mencionei do terceiro mundo. Esse círculo hermético é socioeconomicamente explicado pela simples razão de quem exporta cultura, também exporta ideias (que os convém), domina as comunicações e logo então adquire poder. Na Europa cada país luta obsessivamente para ocupar o primeiro lugar de promotor de cultura e pensamento mundial. Cada um se valoriza nos momentos passados da sua história que lhes são mais convenientes, a França napoleônica, a Inglaterra Vitoriana, a Itália do renascimento ou imperial-romana, Espanha e dos 1600, o 1400/500 de Portugal, etc. criando assim uma espécie de identidade coletiva e tradição cultural bem definidas, que consequentemente influenciam direta e indiretamente todo o resto da sociedade. A parte que se reserva ao Brasil na vitrine Europa é muito pequena, acontece na música, um pouco menos na literatura, o cinema e as artes plásticas quase são inexistentes. E quando existem nenhuma tem um sólido background de assessoria jornalística, crítica e divulgação publicitária. Nós todos podemos contribuir para um Brasil que reconhece o seu próprio “ser”, que se identifique e reconheça aquilo que tem de melhor, de qualidade, na sua capacidade de transformação. Um país feito da mistura de tantas raças e culturas e que há como única certeza a incerteza; seja esta também chamada ou rotulada como dialética (marxista), o balanço yin/yang (chinês), a enantiodromia conceito de Heráclito e depois Jung, para o conceito de que uma grande força em uma direção gera uma força no sentido oposto, ou simplesmente a brasilidade; esta é a grande base do nosso povo e do nosso trabalho, o fazer e o transformar qualquer matéria-prima sem embaraços: se me derem um pedaço de papel eu o desenho, pinto, colo, rasgo e transformo; se me derem um pedaço de madeira ou de ferro qualquer eu também o transformarei, moldarei, entalharei, serrarei, pregarei e o transformarei; se não me derem nada eu pegarei esse bloco de ar e te juro pensarei em criar qualquer coisa com isso. Este é o fascínio ou o ponto de reviravolta que é inato na sociedade brasileira. Neste país dicotômico conhecido pelo seu fatalismo secular, é lá mesmo onde reside também a semente do inefável, do que ainda nao é, mas paira no ar, se mimetiza nas folhagens, onde enquanto há vida e se transforma tudo é possível no ar de quem respira esta “brasilidade”.

Roma/São Paulo, março de 1995.